quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Só faltou mesmo trazê-la... e vontade não faltou!

O Sr. Mário Modesto de uma natural ingenuidade, bondade e simpatia, características inerentes aos alentejanos de gema (como é o caso) surpreendeu-nos quando, um belo dia de manhã, traz ao seu colo uma doce "borreguinha" com 1 mês de vida, orfã de mãe, alimentada por biberon dado maternalmente pelo Sr. Mário, com um andar ainda desastrado de bebé e um olhar curioso por tudo o que mexe. Encantou-me de imediato, e as imagens falam por si.
É impossível resistir a um doce destes...

O Sr. Mário Modesto, a "borreguita" e eu.

A "borreguita" a dar-me lambidelas (até xuxou nos dedos porque tinha fominha).

A "borreguinha" de pé (esta imagem confirma tudo o que disse)

PS. Só faltou mesmo os tomates para fazermos a "selada" para levarmos para a praia. Mas fica para a próxima, nós não nos esqueceremos!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Pela tua, pela minha, pelas nossas velhinhas...

Voltava de viagem, dum paraíso de descanso, e ouvi esta música que me fez logo lembrar de ti... dos últimos inesperados acontecimentos, da tua sensibilidade e consequentemente do teu sofrimento com esta perda...

Pela tua, pela minha e por todas as velhinhas... mães, avós...


Balada para uma velhinha - Carlos do Carmo

Num banco de jardim uma velhinha
está tão só com a sombrinha
que é o seu pano de fundo.
Num banco de jardim uma velhinha
está sozinha, não há coisa
mais triste neste mundo.
E apenas faz ternura, não faz pena,
não faz dó,
pois tem no rosto um resto de frescura.
Já coseu alpergatas e
bandeiras verdadeiras.
Amargou a pobreza até ao fundo.
Dos ossos fez as mesas e as cadeiras,
as maneiras
que a fazem estar sentada sobre o mundo.
Neste jardim ela
à trepadeira das canseiras
das rugas onde o tempo
é mais profundo.
Num banco de jardim uma velhinha
nunca mais estará sozinha,
o futuro está com ela,
e abrindo ao sol o negro da
sombrinha poidinha,
o sol vem namorá-la da janela.
Se essa velhinha fosse
a mãe que eu quero,
a mãe que eu tinha,
não havia no mundo outra mais bela.
Num banco de jardim uma velhinha
faz desenhos nas pedrinhas
que, afinal, são como eu.
Sabe que as dores que tem também são minhas,
são moinhas do filho a desbravar que Deus lhe deu.
E, em volta do seu banco, os
malmequeres e as andorinhas
provam que a minha mãe nunca morreu.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

NoSiLêNcIoDeMaRiA

Deste silêncio que me invade
A tua imagem
O rosto da nossa eternidade
A fome que assalta e possui...
Todo o meu olhar é esta bela viagem
Entre tudo o que ainda não fui
E talvez o que um dia saberei ser:
A saudade em forma de verso a nascer...

Deste voo que lentamente
Se faz ao rio
A inquietação da pele fervente
O canto de uns lábios doces em mim...
Todos os meus passos são fonte de calor e frio
Uma janela entreaberta ao teu jardim
E talvez seja mesmo eu a amanhecer:
De novo amante e todo o seu poder!

Pedro Branco

quarta-feira, 5 de agosto de 2009